1988
00:36
Ela estava deitada em sua cama
tendo o primeiro vislumbre do seu dia. Seu namorado tinha acabado de acordar.
Roupas estavam jogadas no chão. Ele se levantou da cama e caminhou sonâmbulo até
o banheiro. Eles estavam enfrentando sua milésima crise e quando brigavam ela
não cedia tão rápido.
Tomaram café em silêncio, o som da
torrada ao ser mordida era o único som audível. Às vezes ele sugava o café
quente criando um ruído peculiar, mas hoje não aconteceu. Ele tinha certeza de
que quando a noite chegasse tudo voltaria ao normal. Seriam ele e ela
novamente. Ela tinha prometido a si mesma que desta vez seria diferente, não
fariam as pazes essa noite.
Ainda enrolada em um roupão branco,
ela secou o cabelo com secador e ele procurou por seu celular. Enviou uma
mensagem para ela, um smille sorridente e quando ela abriu a mensagem deletou
imediatamente.
Ele ainda se lembra de quando a
conheceu. Foi no inverno de 1988, ela vestida com saia de pregas, blusa
estampada e bota. Ele usava só uma calça que parecia folgada demais, uma
camiseta branca e blaser nos ombros. Desde então não se separaram mais, e
quando não estavam juntos eram como se o dia não amanhecesse, como se o sol não
tivesse surgido. Suas brigas eram só um dia nublado, nuvens negras que o sol logo
trataria de dissipar, afinal eles eram fogo e gasolina.
Eles tinha brigado por que ele
esqueceu da data do aniversario de namoro e para ela isso era imperdoável e ele
sempre soube o quanto ela era ligada a isso, e que em todass as datas como esta,
eles sempre trocavam presentes e não ter algo da parte dele este ano, era a
mesma coisa que apagar algo vivo dentro dela, a lembrança de que tudo sempre
valeu a pena.
Antes de montarem em suas
bicicletas ele fez mais uma tentativa de comunicação. Todos os dias eles
montavam em suas bicicletas e pedalavam juntos quatro quarteirões antes de
seguirem caminhos diferentes. Ele com sua pasta pendurada nos ombros, ela com
sua bolsa na cesta.
Naquele dia, pela primeira vez ela
decidiu que tomaria um novo caminho e assim foram em direções opostas e antes
de começarem a pedalar ele lançou um olhar para ela; um olhar choroso, um
pedido de desculpas, um eu te amo calado e não menos importante um olhar que
dizia que ele sabia respeitar o tempo e estaria ali para quando ela resolvesse
fazer as pazes.
Agora ela está sentada em uma grama
verde e fecha os olhos se lembrando exatamente o que aconteceu depois que
tomaram rumos diferentes.
Enquanto pedalava, ela resolveu
parar e se perguntar se o que estava fazendo era certo. Desceu da bicicleta e
ficou andando de um lugar para o outro apertando o casaco preto que sempre
usava quando ia trabalhar, pois sempre tinha um neblina densa. Naquele dia não
tinha neblina e mesmo assim ela o usou e quando enfiou as mãos no bolso do
casaco encontrou um bilhete no qual dizia:
Oi meu amor, eu não esqueci do nosso aniversario de namoro e eu queria te fazer uma surpresa. Sabe aquele restaurante que você sempre quis ir? Então, ontem estava lotado, mas consegui uma reserva para hoje e pensei “só são 24h, ela vai ficar brava e depois vai me agradecer”. Vista-se bem linda para o nosso jantar as 20h, estarei esperando por você e procure na sua bolsa algo que não consegui esperar mais pra te mostrar. Se você aparecer com ele no dedo é por que aceita meu pedido de casamento, caso contrario eu entenderei. Eu te amo, para sempre.
As lagrimas cambalearam no seu
rosto; lágrimas de felicidade e horror! Como ela poderia ser tão leviana? Tão
má? Ele estava fazendo só uma surpresa!
Desesperadamente ela procurou em
sua bolsa o que ele tinha deixado e era uma caixa pequena de veludo com um
lindo anel que ela colocou no dedo no instante depois e logo ela estava
pedalando de volta; pedalando para pedir desculpas a ele, pedalando e torcendo
para encontrá-lo, ele sempre pedalava devagar. Ela queria pedalar com ele
novamente.Juntos, na mesma sincronia.
Ela o encontrou no meio do caminho,
mas não foi como imaginou, não pedalaram juntos novamente. Ele estava caído no chão,
a sua bicicleta jogada a uma grande distancia. Pessoas ao redor. Quando ela notou que a bicicleta era
dele, ela pulou da sua, correu pelos carros, o coração aos pulos, abrindo
caminho pela multidão e seus joelhos pareceram se quebrar ao lado dele. O sangue
escorrendo pelo chão negro. A mancha vermelha no seu peito. Ele ainda estava
vivo, seus olhos abertos como se estivessem esperando apenas por sua amada. Ela
chorou vendo os lábios dele se moverem como em câmera lenta. Um pedido de
desculpas. Um eu te amo. Um tudo vai ficar bem. E os olhos dele se abrem
querendo sair da caixa e este era seu ultimo suspiro e a ultima coisa que ele
viu foi ela.
Mais tarde ela soube que ele tinha
sido baleado após ajudar uma velhinha que estava sedo assaltada por dois
jovens.
Desde esse dia ela não tirou o anel
do dedo. A reserva estaria esperando por eles; eles nunca iriam a este tão
sonhado restaurante. Até hoje ela se amaldiçoa por não perdoa-lo. Por ter
apagado a mensagem do seu celular. Por não ter cedido uma única vez, por ter
mudado seu trajeto por uma coisa tão boba. Talvez se ela estivesse lá, ele
estaria vivo, ela o impediria. Se eles tivessem feito as pazes ele estaria com
ela.
Agora ela está deitada no tumulo
dele esperando o dia em que se encontrarão novamente. O dia em que ela diria
que o ama e que as datas eram só uma coisa boba. Às vezes a gente perde grandes
coisas, grandes momentos por uma coisa que não faz sentindo algum. Quantas
vezes a gente tem de pagar por um preço alto por uma coisa tão tola? Por que a
gente não pode simplesmente aceitar que as vezes só precisamos de um abraço, de
estar perto um do outro e basta?
Ela só o queria; presentes,
comemorações, anéis [...] não paga por um amor que sempre esteve ao seu lado e
por ironia do destino não está mais.
É como dizem, só se dá um devido
valor quando se perde e isso ela aprendeu. Jamais esqueceria. Era a sua lição.
Ela o amaria.
13 comentários
Agora to com muita raiva de vc!
ResponderExcluirEu esperei pra ler feliz e agora depois de ler eu estou triste!!!!!!!
Que raiva :@
Perdão... Bem, acho que foi uma linda historia, uma lição né? HAHAHAA
ResponderExcluirEu chorei! Vc me diz pra ler feliz e acaba com minha felicidade matando ele, a lição só pode ser: não confie em Matheus HAHAHAHA
ExcluirNão vale espalhar o fim né? HAHA
ExcluirHAHAHA muito engraçado vcs brigando!
ResponderExcluirMas o texto é incrível! Eu chorei no final, já imaginava que algo ruim teria acontecido a ele, mas não imaginava que ele fosse morrer. MALDADE matar ele assim.
bjos, Lili ^_^
Obs. Ainda bem que não esperei estar muito feliz hehehe
hsuausuasua que bom que você gostou Lili e que seguiu a dica de estar feliz (risos) e eu não sou tão ruim assim HAHAHA
ExcluirGarota, o layout tá LINDO.
ResponderExcluirMas esse texto foi bom, tem que matar o personagem mesmo, cabra besta. Se fosse eu tascava logo um beijo nela e pedia pra casar. Fico esperando e se ferrou askaoskaoskpaskpa
Matheus tá apoiado!
Pois é Caio, quem mandou ele esperar demais?, se poder fazer hoje, por que deixar pra amanha? HAHAHAHA
Excluirobrigado pela visita!
Muito bonita a história, uma grande lição! Parabéns.
ResponderExcluirObrigado pela visita Wagner e que om que gostou do texto, as vezes as pessoas não gostam muito de coisas que acabam assim.
ExcluirQUE LINDO!!!
ResponderExcluirTô até chorando aqui... Essa história é realmente uma lição de vida. Temos mesmo que dar mais atenção aos pequenos detalhes, mas que fazem toda a diferença, e não a coisas fúteis. ;p
Então Natalya, pois é, as vezes a gente se apega a tanta coisa banal que esquece do que realmente importa.
ExcluirObrigado, volte sempre hein? HAHAHA
Bem confesso que ler essa história as 5:30... não foi no meu momento mais feliz....Porém linda história... as vezes perdemos grandes chances de ser feliz, pelo simples fato de termos medo de tentar.... se ela o tivesse perdoado de início ou se ele tivesse dado o anel, desde o princípio, será que teríamos tido esse final??? Talvez sim, talvez não... acho que qd esta nos planos de Deus, só as circunstâncias que mudam... nesse caso o maior problema e que ela vai viver com "e se..." para o resto da vida.... e é aí que mora o X da questão! Bela história.... parabéns!
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